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Coaching e PNL: Panaceia ou Falácia?

                                         COACHING E PROGRAMAÇÃO NEUROLINGUÍSTICA: PANACÉIA OU FALÁCIA?

            O meu primeiro contato com o Coaching aconteceu em 2002, quando a empresa em que atuava patrocinou o processo para um número reduzido de gestores, e eu, felizmente, pude experimentar a metodologia, submetendo-me a dez sessões semanais transformadoras. Depois desse momento, voltei a me distanciar do tema, limitando-me a me apropriar de algumas técnicas, para a solução de impasses que, de vez em quando, enfrentava, em minha trajetória pessoal ou profissional. Em 2006, iniciei meus estudos a respeito, já que fui instado a atuar com Coach e Mentor interno, na organização. Dois anos antes de me aposentar, intensifiquei a imersão no assunto, e assim que me desliguei do mercado corporativo, inclui o Coaching em meu rol de prioridades profissionais, junto com o desenvolvimento de líderes. Por um caminho natural, acabei concentrando minha agenda como Coach de Carreira, já que, além do domínio da metodologia, havia percorrido uma trajetória profissional bastante intensa em experiências, transitando entre cargos de Office Boy e Executivo, em grandes empresas. Mais do que o meu desenvolvimento ao longo dos anos, no tema, pude acompanhar a explosão do interesse que o Coaching veio despertando, na última década, fruto, provavelmente, dos inúmeros casos de sucesso que sua aplicação vem acumulando, no ambiente corporativo. Já a PNL – Programação Neuro Linguística – só me foi apresentada em 2014, em um dos cursos de formação de Coaching que desenvolvi, levando-me a me interessar pelo assunto e a dedicar parte da minha agenda ao conhecimento e domínio dos conceitos e das técnicas dessa modalidade. Posso, hoje, identificar-me como alguém apaixonado, e, ao mesmo, tempo, muito preocupado com o que vem acontecendo no universo do Coaching e da Programação Neuro Linguística. E é essa dualidade que pretendo explorar neste artigo.

            É possível afirmar, de acordo com o histórico de estudos e desenvolvimento dessas duas metodologias, que ambas devem muito à Psicologia Positiva e à Neurociência e que, respeitados seus limites, apresentam razoáveis interseções entre si. O “DNA” dessas duas disciplinas, trouxe algo de muito novo, na medida em que conseguiu demonstrar, de maneira bastante consistente, a força da mente, tanto nos comportamentos que tendem a gerar resultados para os seres humanos, quanto na capacidade de se calibrar nossas visões de mundo, contribuindo para estados existenciais mais felizes e menos vulneráveis aos obstáculos que a vida tende a nos apresentar. No entanto, em minha opinião, esse ineditismo no trato da mente humana trouxe, também, um certo exagero na interpretação do poder da mente em relação ao nosso potencial de realização, passando a defender, não raramente, que podemos tudo o que quisermos, se nossa mente estiver, genuinamente, convencida disso e moldada para tal. Uma afirmação como essa, que vem sendo disseminada por boa parte das personalidades do Coaching e da Programação Neuro Linguística, praticamente despreza o fato de que qualquer existência é forjada por variáveis internas e externas. É como se toda a realidade externa estivesse subordinada à nossa capacidade de pensar e agir. E, quando uma crença como essa começa a predominar, é como se o ser humano estivesse deixando de ser um ser humano, e começasse a se transformar em um deus, ou em um gênio da lâmpada…

            Ouso arriscar, ainda, que, além dos apaixonados pelo conceito de que a mente tudo pode, somaram-se profissionais oportunistas, que perceberam uma enorme frente para se faturar com o ineditismo e com o apelo do tema. Lembro-me de ter assistido, há alguns anos, a duas edições do documentário “Quem somos nós”, nos quais os autores narravam a trajetória de uma personagem, sob os comentários de diversos cientistas, que professavam sobre a Física Quântica e a Neurociência. Chamou-me a atenção um momento em que os autores defendiam que a obesidade, por exemplo, é fruto, simplesmente, de se “pensar gordo”. Assim, alguém que tivesse uma mente voltada para a obesidade, ativaria substâncias no organismo que também se dedicariam à obesidade, levanto o organismo a comer mais e pior, e, como consequência, ao ganho contínuo de peso. Ou seja, pelos argumentos do documentário, bastaria ao indivíduo deixar de “pensar gordo” e todo o processo seria revertido, fazendo com que o mesmo se tornasse um ser esbelto.

            Confesso que quando assisti aos dois documentários, enquanto corria na esteira, fui tomado por uma excitação singular, como se sentisse que o mundo estivesse a meus pés, dependendo apenas de minha vontade. Mas depois, como sempre, procurei refletir a respeito, e, em pouco tempo, os documentários já não se mostraram tão convincentes assim…  Lembro-me, ainda, da ótima leitura do livro Super Cérebro, de Deepak Chopra, que, em minha opinião, é um cara sensacional, mas que, às vezes, exagera na crença sobre o poder da mente. Em diversos momentos, o autor afirma que a depressão não existe. O que existiria é a mente que acredita que a depressão existe. Por mais que eu goste de Deepak Chopra, não consegui concordar com ele. E por que não? Por que me lembrei de que, durante quase uma década, sofri terrivelmente com o que viria a ser diagnosticado, muitos anos depois, como síndrome de pânico. Enquanto sofria as crises, em que corria para casa e me encolhia na cama, embaixo dos lençóis, achando que estava morrendo, nem sabia do que se tratava. O diagnóstico só viria nove anos depois, quando a Psicologia e a Psiquiatria conseguira identificar a síndrome, que derivaria,entre outros fatores, segundo os estudos, de um desequilíbrio hormonal no cérebro. Diagnosticado e tratado, nunca mais sofri os sintomas que aquele desequilíbrio cerebral me trazia. Como, então, dizer, que eu estava simplesmente sugestionado por minha mente, se eu sequer sabia da existência da tal síndrome? E, como então negar que, uma vez tratado o desequilíbrio hormonal, eu simplesmente me vi livre da doença?

            Bem, mas o que muito me preocupa, diante do que tenho vivenciado nesse universo que envolve o Coaching e a Programação Neuro Linguística, é a postura de muitos profissionais que, por convicção ou por conveniência, vêm elevando esses temas a algo como uma panaceia, que pode curar todos os males, de qualquer natureza. E, ao assim agirem, podem, num futuro próximo, migrar a imagem dessas metodologias para o outro extremo, o da falácia…

            Aos indivíduos que buscam se submeter a essas metodologias, como um apoio para seus desejos ou dores, não raramente é vendida a ideia de que, uma vez se submetendo a um processo de Coaching ou de PNL, tudo se resolverá. Seja alguém desejando uma promoção,  resgatar um casamento, ou  emagrecer quarenta quilos, vende-se a ideia de que, em cinco ou dez sessões, tudo estará resolvido. E isso, em minha visão, é uma postura, no mínimo, temerária. O Coaching e a PNL podem, sim, contribuir bastante no processo, mas não representam uma “vara de condão” ou “pó de pirlipimpim”…

           Recentemente, fui abordado por uma potencial cliente, que havia me acessado na internet e gostado de um texto que eu havia escrito, sobre Coaching. Disse-me, então, que gostaria de emagrecer e perguntou-me se eu toparia ser seu Coach. Perguntei-lhe, então, se ela sabia o que era um processo de Coaching, e ela me respondeu que não. Expliquei-lhe que poderia, sim, ajudá-la, mas que, provavelmente, ela precisaria, adicionalmente, se submeter a alguns exames clínicos e, talvez, conversar com uma nutricionista, pois precisaríamos desenvolver um processo multidisciplinar. Ela nunca mais me procurou. Provavelmente, desistiu de mim, ao perceber que eu não contava com a tal “varinha mágica”…

            Por outro lado, com relação aos indivíduos que buscam formação em Coaching e PNL, tem sido vendida a ideia de que basta desenvolver um treinamento de uma ou duas semanas, e você estará apto a tratar todos os males dos seres humanos… Isso porque algumas empresas de desenvolvimento na área estão muito mais preocupadas em angariar milhares de alunos, do que em desenvolver, de fato, profissionais qualificados para atuar nesses segmentos. E o pior é que essas empresas vão utilizando o apelo que o assunto traz para estimular seus clientes a desenvolver diversos cursos de formação, encadeados, vendendo a ideia de que, ao sair desses treinamentos, basta confeccionar os cartões de visita e estruturar um espaço físico, para atrair centenas de clientes e ficar rico… Na sequência, as mesmas instituições lançam novos cursos para que os Coaches então formados – muitos desesperados pelas dificuldades em avançar na carreira – possam entender como escolher um nicho, como atrair clientes, como desenvolver sessões matadoras, e assim por diante, num ciclo de questionável dependência, o que, não raramente, causa frustrações e arrependimentos a boa parte dos indivíduos encantados com o assunto.

            De alguns casos que já acompanho, vou citar apenas um. Uma querida amiga, jovem e linda pessoa, participou comigo de um dos eventos de formação de Coaching. Na sequência, engatou mais três ou quatro cursos, numa imersão intensa, envolvendo técnicas de autoconhecimento, questionamentos sobre o status quo e estímulos a novas decisões… Separou-se do marido, deixou a cidade onde morava, mudou de país, começou a entregar todos os seus pertences a necessitados e acabou em tratamento psicológico, ao se ver totalmente desequilibrada, em seu estado físico e emocional. Em uma das conversas recentes, ela disse reconhecer que fora com muita sede ao pote. Mas, fico em dúvida, se suas decisões anteriores foram, realmente, dela, ou estimuladas por um Marketing agressivo e focado no emocional das pessoas que atinge…

            Talvez o ícone do momento, no mercado de Coaching e PNL, seja Anthony Robbins… Pessoalmente, gosto do que ele escreve, e procuro extrair o que de melhor ele dissemina, porque respeito-o como profissional na área. No entanto, seus eventos envolvendo milhares de pessoas, onde as atividades mais parecem cultos de uma seita, levando os participantes a uma catarse, mostram, para mim, uma tendência à fanatização, nociva, em minha opinião, a um tratamento mais responsável sobre o que o Coaching e a PNL podem, efetivamente, trazer de bom para o ser humano.

            Enfim, respondendo à pergunta formulada no título deste artigo, eu diria que, para mim, o Coaching e a Programação Neuro Linguística não representam nem uma panaceia, nem uma falácia. Fazem parte, em meu entendimento, de um rol qualificado de métodos e técnicas modernas, para potencializar a capacidade dos seres humanos de buscarem seus objetivos, e que devem ser posicionados como algo inovador, mas não milagroso. Cada um de nós vivemos em um ambiente em que prevalecem as variáveis internas e externas. O Coaching e a PNL podem contribuir significativamente para que nos preparemos melhor, internamente, a fim de enfrentar o ambiente externo, na busca de nossos objetivos. Só não podem nos prometer que seremos soberanos, pois o universo é muito mais rico e complexo do que nossa própria mente. Se os profissionais que hoje militam nesses temas tiverem um pouco mais de responsabilidade, talvez venhamos a ocupar um espaço mais valorizado e perene, junto àqueles que buscam o caminho da evolução e da felicidade.

            Para encerrar este artigo, eu diria que, como donos e capitães de nossos barcos, temos todas as condições para controlar nossas velas. Mas não temos poder para dominar os mares. O alcance de nossos objetivos dependerá, sempre, de nossa capacidade de manejar o barco, mas, também, de nossa consciência de que os mares possuem suas próprias forças, e de que, então, o destino que alcançaremos, dependerá desses dois fatores, e não apenas de um…

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